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terça-feira, 2 de março de 2010

Um poema para a liberdade


Liberdade


A liberdade é o meu clarim de guerra
e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,
como os caminhos soltos pela terra,
como os pássaros livres pelos céus.


Ela é o sol dos caminhos ! Ela é o ar
que os enche os pulmões, é o movimento,
traz num corpo irrequieto como o mar
uma alma errante e boêmia como o vento.


Minha crença, meu Deus, minha bandeira,
razão mesma de ser do meu destino,
há de ser a palavra derradeira
que há de aflorar-me aos lábios como um hino.


Liberdade: Alavanca de montanhas!
Aureolada de louros ou de espinhos
há de cingir-me a fronte nas campanhas,
há de ferir-me os pés pelos caminhos.


Sinto-a viva em meu sangue palpitando
seja utopia ou seja ideal, - que importa?
Quero viver por esse ideal lutando,
quero morrer se essa utopia é morta !


(Poesia de JG de Araújo Jorge
do livro O Canto da Terra – 1945)

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Um lindo poema de J G de Araújo Jorge

AMO


Amo Amo a terra ! Amo o sol ! Amo o céu ! Amo o mar !
Amo a vida ! Amo a luz ! Amo as árvores !
Amo a poesia que escrevo e entusiasta declamo aos que sentem como eu a alegria de amar !

Amo a noite ! Amo a antiga palidez do luar !
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo !Uma folha qu e cai ! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo !


Amo os rios ! E a estranha solidão em festa,dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta !


Amo a cor que há nos sons ! Amo os sons que há na cor !
E em mim mesmo - amo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor !


(Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O soneto de hoje...

POEMA

"Maldade"

Tu podes ser igual a todo o mundo
teres defeitos mais que toda a gente,
- que importa ? se este amor cego e profundo
teima em dizer que te acha diferente !

Para mim (eu que te amo como um louco)
os que falam de ti são línguas más,
- ah ! todo o amor que te dedico é pouco
e é sempre pouco o amor que tu me dás !

Sou a sombra que segue os teus desejos
e aos teus pés, numa oferta
extraordinária
a minha alma vendeu-se por teus beijos...

Falam de ti... Escuto-os... Fico mudo...
Quanta maldade cruel, desnecessária
se eu já sei quem tu és... se eu sei de tudo !

J G de Araújo Jorge

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sozinha...


Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Poema...


Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Esses dias...

Vou caminhando rumo ao córrego,
de areia está cheio os meus olhos.
Não consigo enchergar bem o caminho,
mas sigo em frente, não posso parar.

A todo amanhecer há esperança
renovada, continuo acreditando
que os dias são como lições...
precisamos aprender e ensinar.

É isso mesmo, eu me aventurando a escrever vesos.


Foto: Izelda Maia

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Mas agora deixo aos que visitam o Córrego de Areia, a verdadeira poesia.
Da nossa incomparável Cora Coralina, o poema:

NÃO SEI...

Não sei... se a vida é curta...

Não sei...
Não sei...

se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.
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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Hoje, recebemos "O AMOR" de Carlos Drummond de Andrade.



Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.



O AMOR

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar
por alguns segundos, preste atenção.
Pode ser a pessoa mais
importante
da sua vida.


Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho
intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando
desde o dia
em que nasceu.


Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os
olhos
encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre
vocês.


Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a
vontade
de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou
um
presente divino: o amor.


Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em
troca
receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos
valerem mais
que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.


Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira
e a
outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e
enxugá-las
com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em
qualquer momento de sua vida.


Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se
ela
estivesse ali do seu lado... se você achar a pessoa maravilhosamente
linda,
mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos
emaranhados...


Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo
encontro que
está marcado para a noite... se você não consegue imaginar, de
maneira
nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...


Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo
assim,
tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela... se você ~
preferir morrer
antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou
na sua vida.
É uma dádiva.


Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam
ou
encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não
prestarem
atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo
acontecer
verdadeiramente.


É o livre-arbítrio. Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras
do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o
amor.

Carlos Drummond de Andrade

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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um verso poesia de Sonia Schmorantz ao Córrego de Areia

Amizade - amigas - amigos...

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Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

Autor: Paulo Santana
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terça-feira, 19 de maio de 2009

Mario Benedetti, um poeta e tanto!

Poeta Mario Benedetti/Cultura
Mario Benedetti

Mario Benedetti era poeta, escritor e ensaísta. Integrante da Geração de 45, a qual pertencem também Idea Vilariño e Juan Carlos Onetti, entre outros. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar "Poemas de Oficina", uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. (* Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 - + Montevidéu, 17 de maio de 2009)

Ausencia de Dios

Digamos que te alejas definitivamente
hacia el pozo de olvido que prefieres,
pero la mejor parte de tu espacio,
en realidad la única constante de tu espacio,
quedará para siempre en mí, doliente,
persuadida, frustrada, silenciosa,
quedará en mí tu corazón inerte y sustancial,
tu corazón de una promesa única
en mí que estoy enteramente solo
sobreviviéndote.

Después de ese dolor redondo y eficaz,
pacientemente agrio, de invencible ternura,
ya no importa que use tu insoportable ausencia
ni que me atreva a preguntar si cabes
como siempre en una palabra.

Lo cierto es que ahora ya no estás en mi noche
desgarradoramente idéntica a las otras
que repetí buscándote, rodeándote.
Hay solamente un eco irremediable
de mi voz como niño, esa que no sabía.

Ahora que miedo inútil, qué vergüenza
no tener oración para morder,
no tener fe para clavar las uñas,
no tener nada más que la noche,
saber que Dios se muere, se resbala,
que Dios retrocede con los brazos cerrados,
con los labios cerrados, con la niebla,
como un campanario atrozmente en ruinas
que desandara siglos de ceniza.

Es tarde. Sin embargo yo daría
todos los juramentos y las lluvias,
las paredes con insultos y mimos,
las ventanas de invierno, el mar a veces,
por no tener tu corazón en mí,
tu corazón inevitable y doloroso
en mí que estoy enteramente solo
sobreviviéndote.

[Mario Benedetti]
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

"Só sei que nada sei"

Hoje, apesar do sol brilhante lá fora, parece que o mundo está nublado... não sei, estou melancólica, sei lá. Me sinto um pouco estranha, não sei...!

O pássaro solitário...


A praça sem
movimento...

Não sei...

Esperar?
Talvez...


O que faço?

Um espiral parado!?

É um símbolo, ou um sinal?

Não sei... cansaço? Talvez.


Foto e verso: Izelda Maia
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

...quem sabe...

uma rede,

um balanço.

um sonho...

um momento de descanso.


uma luz...

...uma vida.

um caminho à vista.

a porta aberta... Será chegada?
ou quem sabe partida...

Foto e verso: Izelda Maia
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Só um lembrete do Mário Quintana ...‏

















'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'

Mário Quintana
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segunda-feira, 2 de março de 2009

Mais uma descoberta.

Jorge de Lima, mais um poeta brasileiro pouco conhecido mas, de grande importância para nossa literatura.
Inventivo, engenhoso, disposto a experimentalismos e extremamente sensível ao drama humano, Jorge de Lima foi um dos maiores tradutores da alma brasileira. Capaz de dar profundidade ao pueril e doçura ao trágico, sua poesia envolve e contamina o leitor num clima de busca essencial.

Os textos de Jorge de Lima abrigam uma colossal possibilidade de leituras (a convivência entre a tradição e o novo, o vulgar e o sublime, o regional e o universal) refletem um artista em constante mutação, que experimentou estilos diversos como o parnasiano, o o regional o barroco, o religioso. Na sua multiplicidade, Jorge de Lima pertence a todas as épocas, mesmo se reportando a um tema ou uma situação específica, ao tocar em injustiças sociais que mudaram pouco desde o início da civilização e quando escreve sobre as grandes dúvidas de todos nós, "...da miséria humana, da tentativa de superação de nossas amarras e de nossas limitações.", explica o poeta e jornalista Claufe Rodrigues, leitor voraz de Jorge de Lima.

Inverno


Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!

(Jorge de Lima)
---

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Prá uns folia, para outros poesia...

Hoje, trouxe a Cecília Meireles. Enquanto acontece por todos os cantos os festejos carnavalescos, eu prefiro as poesias.



Reinvenção


A vida só é possível
reinventada.


Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecilia Meireles
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Descobrindo mais um poeta.

Sergio Ricardo Lopes, nasceu no dia 27 de outubro de 1964 na cidade de Campina Grande, Estado da Paraíba. Se destacou na música cristã brasileira por possuir um estilo único, livre de influências, escrevendo letras com uma abordagem humana e realista, avessa aos modismos que normalmente pontuam o ambiente musical gospel. O poeta se mantém linear, imutável com o passar do tempo. reconhecendo sempre na sua música a fragilidade humana mas transmitindo esperança, paz e conforto ao espírito. Sua carreira iniciou-se em 1990, desde então construindo e mantendo uma multidão de pessoas que ouvem e refletem acerca de sua letra consciente sobre o uso da fé em Cristo para resolver todo conflito humano.


Sérgio Lopes compõe desde sua adolescência, quando também cantava no coral jovem da Igreja Evangélica Congregacional de Campina Grande, onde permaneceu até 1979.

Considerado poeta por causa do estilo poético de suas letras, também faz juz a esse título pelo livro publicado em 2006 intitulado “Sergio Lopes - O Observador da Vida - Poemas e Crônicas ”. Onde encontramos este e outros poemas.

Os Poetas


Poetas são, por natureza, inconformados
Com a despoesia das vidas acinzentadas;
Com o sacrifício dos amores anulados
Pelo egoísmo das pessoas mal amadas

Poetas são, por natureza, solitários
A multidão que o acompanha são seus versos
No tempo em que viver são como missionários
De um lado a outro, seus escritos são dispersos

Mas quando finalmente morrem os poetas
Surgem os críticos, editores com suas metas
De publicar cada soneto rabiscado;

E só assim o mundo aceita a poesia:
Sendo o poeta vivente, ninguém ouvia.
Quando se cala, seu poema é idolatrado.

(Sergio Lopes)
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domingo, 11 de janeiro de 2009

Dê um grito contra a matança em Gaza!



(*)

Corre sangue no rio Jordão
E os sacrificados não são ovelhas,
Mas meninos e meninas
Que agora nos tanques
Já não poderão atirar pedras...


Já não há gaze para tantos
Feridos em Gaza.
Atacada por mar, ar e terra,
Gaza sangra, Gaza geme,
Cercada, mutilada, Gaza freme.
Gaza não é monte de argamassa,
Gaza é gente...


Mas, Gaza respira,
Gaza ama e resiste,
E lutará,
Até a última oliveira,
Até a última tamareira,
Até o último menino...


Ó povo judeu,
Que terrível crime comete
Vosso Estado!
A que estado caíste!
Vós, vítima dos guetos,
Vós, vítima do holocausto,
Vossos líderes
Tornaram-se de Hitler
Aprendizes.
Alguns já causam inveja ao mestre.

Ó povo judeu,
Liberta-te, pela memória
Dos teus,
Da vergonha de tua estrela
Adquirir a aparência
E a essência da suástica!


Como querer de um povo condenado ao gueto,
De um povo pelo inimigo dividido,
Reagir com a polidez dos diplomatas?
Ah!, amado povo palestino,
Por Arafat, por teus mártires,
Reconstrói tua unidade!


Que a bravura de Gaza,
Não nos acomode à poltrona,
Que a carnificina que a TV não mostra
Não seja apenas um filme que nos arranca lágrimas...
Olha para ti!
Acaso não és um romano
Sentando na torpe arquibancada
Vendo na arena
Os cristãos lutando contra os leões?


Faça alguma coisa por Gaza,
Mande uma carta ao teu político,
Meta a mão no bolso,
Sacuda os ombros de teu amigo,
Vá à tua janela e dê um grito,
Vá ao templo, corra à praça,
Mande um imeio, ou use outro meio,
Só não vale cruzar os braços
Ante essa matança, essa desgraça...

(Adalberto Monteiro)

*A charge, assinada por Enio Lins, foi publicada originalmente no jornal Tribuna Operária número 73, de junho 1982, quando crianças, no caso as do Líbano, já eram vítimas das atrocidades de Israel.


Adalberto Monteiro, Jornalista e poeta. É da direção nacional do PCdoB. Publicou três livros de poemas: Os Sonhos e os Séculos(1991); Os Verbos do Amor &outros versos(1997) e As delícias do amargo & uma homenagem(2007).

Fonte:Vermelho - prosa & poesia
.

sábado, 29 de novembro de 2008

A Razão da Natureza

Uma poesia do escritor cearense Antonio Filgueiras Lima, que nos descreve neste poema o drama das enchentes sempre presente na vida dos brasileiros, seja no norte, sul ou nordeste...


Foto retirada da Bodega Cultural


A ENCHENTE

Era a casa de tijolo, à beira do rio,
a melhor do lugar.

Na noite preta como o cão
as águas do rio incharam,
cresceram,
inundaram tudo
e continuaram inchando
e crescendo sem parar...

A casa ficou perdida no meio do rio
como um navio no alto-mar.
Pequeninas e pálidas estrelas
cobriram o rosto com o lenço das nuvens,
com medo de olhar...

- Eh! canoeiro! socorro!
- Se a enchente continuar como vai,
daqui para o dia amanhecer
a casa cai!

E a voz aflita e lúgubre gemia
no silêncio da noite de agonia.

- Socorro, canoeiro!
- Só a canoa "lracema"
Poderá atravessar.
Uma canoa pequena
ainda é pior: pode virar.

...............................................
- Socorro, canoeiro,
- Eh! canoeiro, socorro, socorro!

Chuá. . . chuá. . . chuá...
Os remos atassalham o dorso do rio,
e a canoa, que ginga e se embalança,
rasga as águas,
corta o vento,
rompe a treva,
fura a noite
- e avança!

Da casa que o rio sitiou
parte um grito de alegria que vale um poema!
- É a canoa "lracema"!
- É a canoa "lracema"!

- Afinal, estamos salvos,
por causa de nossa fé.
Viva Nosso Senhor Jesus Cristo!
E viva Nossa Senhora,
Santa Bárbara, São Jerônimo,
São Francisco de Canindé!

Agora, de volta à terra,
conduzindo os que salvou da enchente,
a canoa, que ginga e se embalança,
corta o vento,
rasga as águas,
rompe a treva,
fura a noite
- e avança!
E avança!

Antonio Filgueiras Lima

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Mais um dos grandes poetas do meu Ceará.

Quero apresentar mais um dos grandes nomes da literatura cearense. Antônio Filgueiras Lima, escritor e educador, destacou-se no cenário educacional por defender uma "Educação para LIBERDADE e para a PAZ.
Poeta, autor de belíssimos poemas. Para conhecer outras poesias acesse o link:

"A ambiência educativa que criei em torno da mocidade, no Colégio Lourenço Filho, não deixa margem a desatinos e revoltas, a explosões de complexos e injustiças recalcadas. Quis sempre que os jovens sentissem uma confiança espontânea em seus mestres e condutores, a começar por aquele a quem toca a maior parcela de responsabilidade nesta tarefa árdua e grandiosa de educar. Humildade, serenidade, verdade e amor - eis as pilastras da obra que venho construindo, há quase vinte e oito anos, sem um instante de descrença, sem um minuto de pessimismo. Creio na mocidade porque nela há uma parcela divina que espalha claridade a todo instante." (Antônio Filgueiras Lima)

Ipê, uma das árvores símbolo de nossa vegetação.


Quando começou o inverno


Nem uma nuvem pelo céu!
E os olhos ansiosos do caboclo
lera, nas impassibilidade do infinito,
o terrível destino do cearense!
Chupou no cachimbo longamente
e, depois, lá se foi
pela estrada poeirenta,
assobiando qualquer coisa que dizia — Esperança.

Mas, noutra manhã, ao despertar,
o sertanejo escutou,
de sua rede de algodão,
a polêmica dos sapos na lagoa,
a cantiga da chuva nos caminhos
e o choro alegre dos rios nos grotões...
E quando, da porta de sua casa pobre
— para mim muito mais rica do que um templo! —,
ele viu a vegetação ressuscitando
e as árvores engalanadas de folhas verdes,
pôs a enxada no ombro,
beijou os filhinhos e a esposa
e seguiu para a roça, alegremente,
a cantar qualquer coisa que dizia — Felicidade!


(A terra molhada pela chuva
tinha o cheiro das mulheres do sertão...)


Antônio Filgueiras Lima
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