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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Esse, é para ler mais de uma vez...



SONETO DA FIDELIDADE
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
---

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Flor Bela, imortal...

"Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar...."
(Florbela Espanca)

Florbela Espanca
Ser Poeta (Perdidamente)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Hoje apresento, o poeta mineiro, José Antonio Jacob.


José Antonio de Souza Jacob
, filho do comerciante Antônio José Jacob e de D. Heloisa de Souza Jacob, nasceu em Juiz de Fora (MG) em 11 de fevereiro de 1950 onde realizou seus primeiros estudos, ingressando em seguida no curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais "Vianna Júnior”.
No final dos anos 70 iniciou-se no jornalismo como redator da Gazeta Comercial, tendo nessa época se aprofundado no estudo de Filosofia e Letras e logo em seguida foi admitido, por concurso, na área de Recursos Humanos da Companhia Telefônica de Minas Gerais, tendo se aposentado do serviço público em 2005. Desde as primeiras letras o menino José Antonio de Souza Jacob foi estimulado a ler poetas, levado pela mão de seu pai, um comerciante que apreciava poesia, especialmente a dos brasileiros e dos portugueses. Entre as leituras de sua adolescência estão poesias de Raul de Leôni, Mário Quintana, Augusto dos Anjos, António Nobre, Cesário Verde, Fernando Pessoa, José Gomes Ferreira e Charles Baudelaire. Da mãe Heloisa herdou a doçura das palavras e a maneira singela de contemplar a vida sem ser alienado. Seu estilo simples e requintado de escrever poesia conquistou grandes poetas e escritores, de sua cidade, de quem passou a desfrutar de convivência contínua, mesmo ainda muito jovem. Por sua perfeição na metrificação e na qualidade poética é considerado por muitos que conhecem sua obra como “um dos mais importantes sonetistas da língua portuguesa na atualidade”. Este juizforano, nascido sob o signo de aquário, recusa-se a escolher seu verso do coração e a participar de escolas e grupos literários, preferindo o sossego da vida bucólica nos arredores de Juiz de Fora. A 27 de abril de 2007 foi condecorado e recebeu a insigne Medalha do Mérito Legislativo, Mérito Excepcional em Poesia, na Câmara Municipal de Juiz de Fora. A 06 de julho de 2007 foi sancionado pelo prefeito de Juiz de Fora o "Título Honorífico de Cidadão Benemérito de Juiz de Fora ao Poeta José Antonio de Souza Jacob", por indicação do vereador Bruno Siqueira, com aprovação unânime da Câmara Municipal.(Fragmentos de texto extraído da Revista Comemorativa dos 154 anos da Câmara Municipal de Juiz de Fora - 2007 )






CASINHA DE BONECA



Um dia ela guardou os seus segredos,

Porque sentiu que o amor ao longe vinha,

Trancou no quarto todos seus brinquedos

E o sonho da boneca e da casinha.


E foi buscar aquilo que não tinha...

No alegre faz-de-conta dos seus dedos

Contou tristezas e chorou sozinha,

Depois sorriu das mágoas e dos medos.


Passou o tempo e ela seguiu a sina,

E assim, com a decência que ilumina,

Também andou por aonde o mal caminha...


Quanta ternura tem essa velhinha,

Que fica no seu quarto de menina

Brincando de boneca e de casinha!


(Jose Antonio Jacob)


domingo, 18 de janeiro de 2009

Na poesia, a expressão do mundo

*

AO MALDITO GEORGE BUSH
(André L. Soares)
.
Chegado ao fim o horror que foi teu tempo,
marcado pelos traumas dessas guerras,
que a morte ganhe, pois, mil mãos severas
pra urdir teu mais moroso sofrimento.
.
Que, à madrugada, os gritos mais horrendos
– dos homens bons, dos quais fizestes feras –,
vindos das covas rasas e trincheiras,
cheguem a ti,... sofridos e violentos.
.
Tendo levado caos a tanta gente,
que, então, conheças dor na iniqüidade,
preso às masmorras tórridas do inferno,
.
onde terás pavor por todo o sempre
e te unirás aos outros vis covardes,
quando virás a ser pasto de Cérbero.
.
.

.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma poetisa potiguar

Auta de Sousa

- "A poetisa mística do Brasil", nasceu e morreu no Rio Grande do Norte.

Simbolista, como seu irmão HenriqueCastriciano de Sousa.

Alma delicada e mística.

Segundo relato de Luís da Câmara Cascudo,

amou em silêncio e morreu tuberculosa aos 25 anos de idade,

depois de pedir: "Moças, não contem que eu vou morrer!"

Seu excelente livro de versos "Horto", de 1900, foi prefaciado por Olavo Bilac, tendo sido publicada,

do mesmo, em 1936, uma outra edição, prefaciada por Alceu Amoroso Lima.

Auta de Sousa, que não tem a popularidade de fato merecida, é autora dentre outros, do soneto "Lágrimas":

Apresentamos agora, mais um dos seus belos sonetos, de Auta de Sousa,

"O beija-flor":


Foto: Galvão Maldonado



O BEIJA-FLOR

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.


Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, n’essa manhã tão fria!


Um dia, foi-se e não voltou... Mas, quando
A suspirar, me ponho contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...


Digo, a pensar no tempo já passado;
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!


Auta de Sousa


........

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Córrego de Areia, minha infância...

Quem no Córrego de Areia não tinha no quintal de casa um cata-vento?
Um cacimbão?
Ao ler este soneto volto à minha infância, tempos de inocência e simplicidade.
Como era divertido quando juntávamos os primos e primas, fosse no sítio de Zé Lopes e Pastorinha, ou no de Vitória e Zé Vidal, às vezes na casa de tio Sebastião e tia Vitória (de Luiz Nunes) ou de tio Crispim e tia Elisa, não importava, se estávamos juntos a brincadeira era certa.
Quanta saudades... velhos tempos... belos dias... infância.



Um cata-vento de brinquedo


De extinto cacimbão o cata-vento
puxa ao meu rosto as águas de outra idade.
Ele é só um brinquedo, mas vale
pelas recordações que guardo dentro


do menino que mora aqui ao lado,
e sabendo de cor a cor dos ventos,
tem na ponta da língua, decorados,
uns gestos infantis de cata-ventos.


Flandre e ferro somados pela solda:
sendo brinquedo, brinca no jardim,
à brisa mais maneira já se alegra.


Brinca sem compromisso, roda e roda,
se fingindo irrigante desta terra,
num faz-de-conta de aguar jasmins.


Virgílio Maia

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Eu conheço esse POETA?

José Guilherme de Araújo Jorge


Esperança


Não! A gente não morre quando quer,
Inda quando as tristezas nos consomem.
Há sempre luz no olhar de uma mulher
E sangue oculto na intenção de um homem.


Mesmo que o tempo seja apenas dor
E da desilusão se fique prisioneiro.
Vai-se um amor? Depois vem outro amor
Talvez maior do que o primeiro.


Sonho que se afogou na baixa-mar,
De novo há de erguer, cheio de fé,
Que mesmo sem ninguém o suspeitar,
Volta a encher a maré.


Não penses que jamais hás de achar fundo
Nem que entre as tuas mãos não terás outra mão.
Pode a vida matar o sonho e o sol e o mundo,
Mas não nos mata o coração.


(Poesia de Maria Helena,– extraído do livro
Concerto a 4 mãos - de JG de Araujo Jorge - 1959 )


Vejamos um pouco de sua biografia:


Nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre. Filho de Salvador Augusto de Araújo Jorge e Zilda Tinoco de Araujo Jorge.

Descendente, pelo lado paterno de tradicional família alagoana, os Araujo Jorge, e pelo lado materno dos Tinocos, dos Caldas e dos Gonçalves, de Campos, Macaé, e S. Fidélis, Estado do Rio.

Passou sua infância no Acre, em Rio Branco, onde fez o curso primário no Grupo Escolar, 7 de Setembro. No Rio , realizou o curso secundário nos Colégios Anglo-Americano e Pedro II Colaborou desde menino na imprensa estudantis. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II, dessa época, ainda ginasiano, sua primeira colaboração na imprensa adulta: em 1931 viu publicado o seu poema "Ri Palhaço, Ri" no "Correio da Manhã", depois transcrito no "Almanaque Bertand" de 1932.

Em 1932, No Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o " Príncipe dos Poetas", sendo saudado na festa por Coelho Neto, "Príncipe dos prosadores brasileiros" recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, Presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por Adalberto Oliveira, então " Príncipe da Poesia Brasileira".

Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o seu terceiro mandato em 1978 .

Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na Câmara dos Deputados.

Politicamente participou sempre das lutas anti-fascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o "Estado Novo". Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período . Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do Gal. Newton Cavalcanti, durante todo "estado de guerra" de 1937.

Foi conhecido como o Poeta do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas às vezes, dramático.

Foi um dos poetas mais lidos, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil.

Faleceu em 27 de Janeiro de 1987.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

pés na areia do jardim das almas perfumadas...

Hoje trago aos visitantes do córrego de areia, uma poesia de carlinhos medeiros, onde fala do amor fraterno, dos bons sentimentos que cultivamos em nossos corações.

Dedico este soneto aos amigos e amigas mais assíduas a este jardim perfumado com a presença de todos vocês...



alma perfumada

há pessoas que tem alma perfumada
de um fragrante que ninguém jamais cheirou
durante toda a vida semeou
o amor, e essa paz tão desejada.

nunca deu as costas a um amigo
seu sorriso, sempre belo em seu rosto,
mesmo nesse mundo de desgosto
essa alma é o mais perfeito abrigo

para as almas cansadas e sem cor,
que murmuram seus ais de dor em dor
e não tem um minuto de descanso

essa alma é mel, é passarinho
é a lua florindo em nosso ninho
harmonia e a paz de um remanso.


Publicado no Recanto das Letras em 04/10/2006

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

POESIA...

"A poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical", (René Waltz, apud Massaud Moisés).

Os poemas são textos que nos provocam sentimentos, impressões, emoções e reflexões.
As palavras revestidas de poesia nos revela a profunda sensibilidade da alma do poeta.


Poetas

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

(Florbela Espanca)

domingo, 12 de agosto de 2007

Camões

Resolvi postar no córrego de areia algo sobre CAMÕES, considerado o "PAI dos Poetas", o maior gênio da língua portuguesa pelo seu eruditismo. Sua obra é um verdadeiro legado literário para o mundo.

"Luís Vaz de Camões
(cerca de 1524 — 10 de Junho de 1580) é frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade." (Wikipédia)

"As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
(...)
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte"

Camões, Lusíadas, Canto I.
Estátua do poeta na praça Luis de Camões, ao Bairro Alto em Lisboa.


E este soneto:


Amor, que o gesto humano n' alma escreve


Amor, que o gesto humano n' alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade,
lágrimas de imortal contentamento.


(Camões)

Se você também gosta e conhece a obra de Camões, deixe aqui o seu verso preferido.

Uma feliz semana à todas e à todos os navegantes da globosfera.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

ALMAS PERFUMADAS


Há pessoas de alma perfumada
De um fragrante que um anjo exalou
Durante toda vida semeou
O amor, e a paz tão desejada.

Nunca deu às costas a um amigo
Seu sorriso, sempre belo em seu rosto,
Mesmo nesse mundo de desgosto
Essa alma é o mais perfeito abrigo

Para as almas cansadas e sem cor,
Que murmuram seus ais de dor em dor
E não tem um minuto de descanso

Essa alma é mel, é passarinho
É a lua florindo o nosso ninho
Harmonia e a paz de um remanso.


(Carlinhos Medeiros)
Desenho por: Izelda Maia

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e a miúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinicius de Moraes)

quinta-feira, 3 de maio de 2007

VIRTUAL


Todos os dias quando acaba o expediente,
Em desatino eu procuro sem saber
O que procuro nem eu mesmo sei porque
Quando me acho, meio ser, meio demente.

São poesias, algo novo, um recado
Ou um pedido de adesão de um amigo
Vou me iludindo, procurando nesse abrigo,
Alguém que possa dividir esse meu fardo

Quem sabe alento a minh'alma tão sofrida
As companhias dessa sombra, nau perdida
Um passatempo nesse mundo desigual

É um faz de conta, qualquer é um, é o que quer,
São trovadores, belas flores, bem-me-quer...
Uma viagem nesse plano virtual.


Caco Passarinho
Foto por: Izelda Maia

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Barcos de Papel


Quando a chuva cessava e um vento fino
Franzia a tarde tímida e lavada,
Eu saía a brincar, pela calçada,
Nos meus tempos felizes de menino

Fazia, de papel, toda uma armada;
E, estendendo o meu braço pequenino,
Eu soltava os barquinhos, sem destino,
Ao longo das sarjetas, na enxurrada...

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
Que não são barcos de ouro os meus ideais:
São feitos de papel, são como aqueles,

Perfeitamente, exatamente iguais...
- Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!


Guilherme de Almeida

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Soneto ao Cravo


Mando mil abraços fraternais
À nossa pátria língua mãe gentil
Nunca se apague os ideais de abril
Do vosso peito, às lutas sociais

Ao povo irmão de Portugal
Grande lição vós enviaste ao mundo
Lutar com cravos, foi demais profundo
Um golpe duro ao ódio mais mortal

Por isso louvo essa bela data
Tudo passa, mas ela não passa
Está contida em nossa alma, enfim

Foi a coragem desse povo nobre
Que empunhou, para mudar a sorte
Flores e rosas, cravo carmesim


Homenagem ao 25 de abril - Data comemorativa à revolução dos cravos em Portugal.

Carlinhos Medeiros

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Via Láctea















"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi , no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi :"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac

sexta-feira, 13 de abril de 2007

SONHOS

Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...


Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...


Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte


Despedaçar esses laços!...
...É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!



Florbela Espanca

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Sentença de um poeta

Quando a noite seduz minh'alma triste e a lua

me põe na boca o gosto doce de romã madura,

formosa estrela canta a luz na madrugada escura,

cravando um raio de esperança e paz na minha rua.


De manhã, o sol bate solidão feroz no peito

e uma voz rouca vem com o vento despertar os medos,

me intimida, sufoca, mas lembra que os meus dedos

somam mais que os obstáculos aos quais estou afeito.


E, como que para livrar de toda culpa e pesadelos,

navego a esmo a vida com paixões, canções e aos poucos

transformo em frases os meus últimos fios de cabelo.


Entrego-me corpo e alma aos versos de um poema novo

que espalham pensamentos desvairados, quase loucos...

Sou meu fiel juiz, dito a sentença e logo me absolvo.


© Nathan de Castro

terça-feira, 10 de abril de 2007

Confidências

















Eu fui contar, chorando, as minhas penas
Ao velho mar; e as ondas buliçosas,
Julgando que eu diria essas pequenas
Mágoas comuns ou queixas amorosas,

Não quiseram cessar as cantilenas
Que entoavam nas praias arenosas
Mas, pouco a pouco, imóveis e serenas,
Quedaram todas, por me ouvir ansiosas.

E concluída a narração de tudo,
Mostrou-se o mar (pois nunca tinha ouvido
História igual) sombrio e carrancudo.

Depois, rolando as gemedoras águas,
Pôs-se a chorar também compadecido
Das minhas fundas, dolorosas mágoas.


Pe. Antônio Tomás

DEFESA

Cada alma é um mundo à parte em cada peito...
Nem se conhecem, no auge do transporte,
Os jungidos do vínculo mais forte,
Almas e corpos num casal perfeito:

Dormindo no calor do mesmo leito,
Voltando os corações à mesma sorte,
Consigo levam à velhice e à morte
Um recato de orgulho e de respeito...

Ficam, por toda a vida, as duas vidas
Na mais profunda comunhão estranhas,
No mais completo amor desconhecidas.

E os dois seres, sentindo-se tão perto,
Até num beijo, são duas montanhas
Separadas por léguas de deserto...


Olavo Bilac
 

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